Tente comprar um rolo de solda com chumbo hoje e vai perceber do que estamos a falar: anúncios marcados como «produto perigoso», listagens que desaparecem do dia para a noite, avisos de substância tóxica ou, pura e simplesmente, um «apenas para uso profissional» que exclui meio mundo. Fica-se com a impressão de que foi proibido — e nos grandes marketplaces, na prática, foi mesmo. O paradoxo é que o material é perfeitamente legal. Vamos explicar o que está realmente a acontecer, por que razão o chumbo continua a ser indispensável para reparar, e onde o pode continuar a encontrar em 2026.
Por que razão a solda com chumbo quase desapareceu das lojas online?
Comecemos pelo essencial: a solda com chumbo é legal. Não existe nenhuma lei europeia que proíba o material. E ainda assim, os grandes marketplaces bloquearam-no por completo: hoje consta, sem margem para dúvidas, na lista de produtos proibidos dessas plataformas.
Não é conversa: vivemos isto na primeira pessoa como vendedores. Amazon, AliExpress e Temu bloquearam há já algum tempo todos os produtos com chumbo, retirando-os do catálogo e classificando-os como tóxicos ou «produto perigoso». O caso mais grave foi o do AliExpress: não se limitou a proibi-los — devolveu aos clientes o valor de todas as vendas dos dois últimos anos destes artigos, por os considerar tóxicos. Os compradores ficaram com o produto e com o dinheiro, e o prejuízo caiu todo do lado do vendedor. Quando uma plataforma reescreve assim dois anos de histórico, não estamos perante um simples aviso: é uma proibição de facto sem qualquer ambiguidade.
Juntam-se a isso os alertas de toxicidade, as restrições de envio de mercadoria perigosa e, nos Estados Unidos, os avisos da Proposition 65 da Califórnia (onde o chumbo aparece classificado como substância que «causa cancro e danos reprodutivos»). A mensagem para quem apenas quer reparar um aparelho é clara: aqui já não vai encontrar, por mais legal que seja o material com que foi fabricado meio mundo.
E a lei, o que diz? Aqui está o paradoxo. Na União Europeia a solda com chumbo não pode ser vendida ao público em geral: a norma REACH proíbe o fornecimento a consumidores de misturas com chumbo acima de 0,3 % — e o 60/40 ou o 63/37 ultrapassam isso em muito —, mas permite o uso profissional, desde que devidamente rotulado e acompanhado da ficha de segurança. Para as grandes plataformas, foi mais fácil apagar tudo para toda a gente (e até penalizar quem vendia) do que criar um canal profissional a sério. O resultado? Um material legal e imprescindível para reparar tornou-se quase impossível de conseguir, e o reparador — profissional ou aficionado sério — fica sem opções.
Então, é legal ou não? O que a lei diz de facto
Há muita confusão neste tema, por isso vamos por partes com as três normas que importam:
- RoHS (a diretiva do chumbo na eletrónica) limita o chumbo apenas em aparelhos novos acabados que são colocados no mercado. Não regula a solda vendida como material — um rolo de fio de soldar não é um «aparelho» —, por isso vender solda com chumbo é perfeitamente legal. Mais ainda: a própria RoHS prevê expressamente que se possam reparar com chumbo os equipamentos fabricados antes de a norma lhes ser aplicável.
- REACH é a que faz a diferença: proíbe vender chumbo (e solda com chumbo) ao consumidor final, mas permite-o para uso profissional/industrial. É preciso rotular como tal e entregar a ficha de segurança. O chumbo metálico, além disso, não consta da lista de autorização REACH — a Comissão decidiu em 2024 não o incluir —, pelo que o uso profissional continua legal sem necessidade de autorizações especiais.
- A nova Diretiva do Direito à Reparação (UE) 2024/1799 aponta na direção oposta à proibição: promove a reparação, obriga a disponibilizar peças e documentação, e protege a atividade dos reparadores independentes. Não restringe nenhum tipo de solda; pelo contrário, reforça o direito a reparar o que já tem.
Em resumo: a solda com chumbo é legal para reparar eletrónica; na UE só pode ser vendida a profissionais. E é aí que está o problema para o aficionado ou o pequeno atelier que antes a comprava em qualquer sítio.
Para reparar, o chumbo continua a ser necessário
Esta é a parte que os marketplaces ignoram. Tudo o que foi fabricado antes da RoHS — grosso modo, antes de 2006 — foi soldado com chumbo. E reparar esses equipamentos com solda sem chumbo nem sempre corre bem.
O motivo é térmico. A solda com chumbo funde a 183 °C; a sem chumbo precisa de 217 °C ou mais. Se tentar reparar uma placa antiga — concebida para o chumbo — com solda sem chumbo, está a colocar mais 30–40 °C de calor em componentes e pistas que não foram desenhados para o suportar, com risco de levantar pads, danificar peças ou deixar juntas frágeis. E se misturar sem querer ligas diferentes, a junta pode ficar pouco fiável. Para uma reparação durável de um equipamento antigo, o correto é soldar com o mesmo material com que foi fabricado: solda com chumbo. Por isso, enquanto existirem equipamentos antigos que valha a pena reparar — e vão existir durante décadas —, o chumbo vai continuar a ser necessário.
Reparar em vez de deitar fora não é apenas uma questão técnica: é a forma mais direta de evitar resíduos eletrónicos. Faz pouco sentido mandar um equipamento para o lixo porque não consegue comprar dois metros de um material legal.
Os tipos de solda e as suas temperaturas
Nem toda a solda é igual. Estas são as famílias com que trabalhamos e, acima de tudo, a que temperatura trabalha cada uma — o dado que faz mesmo a diferença quando está a reparar:
| Liga | Ponto de fusão | Ferro de soldar (manual) | Para quê |
|---|---|---|---|
| Sn63/Pb37 (com chumbo, eutética) | 183 °C | ~300–350 °C | A rainha da reparação. Eutética: funde e solidifica de uma vez (sem fase pastosa), molha de forma excelente e deixa juntas brilhantes. Muito fácil de trabalhar. |
| Sn60/Pb40 (com chumbo) | 183–190 °C | ~300–350 °C | Quase idêntica ao 63/37, muito comum em fio. Tem uma pequena gama pastosa, por isso convém não mexer na junta durante o arrefecimento. |
| Sem chumbo SAC305 (Sn-Ag-Cu) | 217–220 °C | ~350–400 °C | O padrão RoHS para SMD/reflow. Juntas mais baças (é normal, não é soldadura fria). Maior stress térmico. |
| Sem chumbo Sn99,3/Cu0,7 (o nosso fio Sn99 Ag0,3 Cu0,7) | ~227 °C | ~350–400 °C | Sem prata, económico, fio de uso geral para montagem nova conforme à RoHS. |
| Bismuto Sn42/Bi58 (baixa temperatura) | 138 °C | ~200–260 °C | Para peças sensíveis ao calor (LEDs, conectores de plástico) e soldadura por passos. É frágil e não deve ser misturado com chumbo — juntos formam uma liga que funde a ~96 °C. |
Ponto de fusão não é o mesmo que temperatura de trabalho
Uma dúvida muito comum. A ponta do ferro fica bastante acima do ponto de fusão, não mesmo nele. A regra prática para soldar à mão é ponto de fusão + ~100 °C: o cobre da placa, as pistas e a massa térmica «roubam» calor à junta instantaneamente, por isso precisa dessa margem para que a solda funda em um ou dois segundos e molhe bem. É por isso que o 63/37 se trabalha a 300–350 °C apesar de fundir a 183 °C. Em forno de reflow, por outro lado, o aquecimento é uniforme e basta ficar apenas 15–30 °C acima do ponto de fusão.
Formatos: fio, barra, bolas e pasta
A mesma solda é vendida em vários formatos, cada um para um tipo de trabalho:
- Fio (bobine): o dia a dia da reparação. Temos com chumbo Sn63/Pb37 em 0,5 mm e 1 mm, e sem chumbo em Sn99 Ag0,3 Cu0,7 de 0,5 mm, 1 mm ou 0,2 mm. Regra rápida de diâmetro: fino (0,2–0,76 mm) para SMD e trabalho de precisão; grosso (0,8–1 mm) para componentes through-hole, cabos e estanhagens maiores.
- Barra: para cadinho ou solder pot (estanhagem por imersão). Temos barra de solda com chumbo de 500 g.
- Bolas (para BGA/reballing): microesferas calibradas para recolocar bolas nos chips BGA durante a reparação. Disponíveis com chumbo e sem chumbo em diâmetros de 0,2 a 0,76 mm, em frascos de 25.000 e de 250.000 unidades.
- Pasta de soldar: para SMD com stencil, reflow e reparações de precisão. Temos com chumbo Sn63/Pb37 (Mechanic MCN-906SP, XG-50), sem chumbo SAC (MCN-906SAC, BST-705) e bismuto de baixa temperatura Sn42/Bi58 (906SBL, WQ86 ou em seringa).
E para que a soldadura agarre como deve, não se esqueça do flux: trabalhamos com os clássicos como o Amtech NC-559 ou o Kingbo RMA-218. Se precisar de unir metais difíceis (aço, alumínio, cobre, zinco), temos uma solda especial com flux integrado pensada precisamente para isso.
E para soldar baterias de lítio? Aí não se usa solda
Uma nota importante porque nos perguntam muito: as células 18650 ou 21700 não se soldam com ferro de soldar. O calor danifica a célula. O correto é a soldadura por pontos com tira de níquel, que aplica o calor em milissegundos. Se vai montar packs de baterias, veja a nossa soldadora por pontos Sunkko e o níquel para soldar (explicamos tudo em detalhe no nosso guia de baterias de lítio).
SatKit: o seu fornecedor profissional de solda em 2026
É aqui que entramos nós. SatKit é uma loja para profissionais, ateliers e reparadores, e é precisamente por isso que podemos — e queremos — continuar a fornecer solda com chumbo numa altura em que se tornou tão difícil de encontrar. Vendemo-la como deve ser, para uso profissional, e mantemos a gama completa: com chumbo, sem chumbo, bismuto de baixa temperatura, em fio, barra, bolas e pasta, além do flux e dos consumíveis para que a reparação corra bem.
A solda não está barata — o preço do metal tem subido ao longo dos anos — e nós tentamos mantê-la a um nível razoável e em todos os formatos. Dê uma vista de olhos à nossa categoria de acessórios de soldadura e, se repara equipamentos fabricados com chumbo, já sabe onde encontrar o material certo para o fazer bem e prolongar a vida útil dos seus equipamentos.